Engraçado o nome da nossa cidade. Uruçuca! Antes Água Preta devido a água escura que a colore. No tempo dos coronéis a vida foi delineada pelo fruto de ouro que tanto nos deram riquezas: o Theobroma Cacao. Esse nome cientifico vulgarmente é conhecido como Cacau. Ele é meio oval de relevo acidentado e de nuances diversas: verde, amarelo, roxo. Ao partir a casca surge gomos de cacau encapusados por um veludo doce coesos a uma raiz saborosamente comível. Impressionante.
Essa descrição é para atenuar o quanto foi e ainda é importante pra nós, esse que é uma espécie de identidade pra nosso povo. Infelizmente hoje nos resta só o couro e, por isso a região então ficou conhecida como cacaueira carregando assim adjetivos que aludem a riqueza. Mas, a riqueza e glamuor que Deus queria era a riqueza de espírito e bondade que poucos obtinham. Coronéis esbanjavam seu poder aquisitivo em móveis, terras e imóveis enquanto suas esposas e filhas direcionavam a vestidos, jóias e viagens. Reza a lenda que havia tanto dinheiro que cavalos tomavam duchas de cervejas.
Nossa cidade de nome engraçado, pertencente a esse território, resolveu mudar do nome genuíno para o jocoso devido a já uma existente homônima no Estado de Pernambuco. Putz perdemos a “parada” feio e desembocamos em Uruçuca por termos menos tempo de Água Preta. Hoje o que nos remete ao antigo nome é o rio que corta nosso município, o Centro Cultural, as lembranças dos antigos e um time. Meu amigo e primo Dr. Ronaldo Vasconcelos discorda totalmente. Para ele, onde moramos, até hoje, deveria se chamar Água Preta. Ele ainda evidencia uma espécie de perda de identidade, uma vez que a junção da nomeclatura Uruçuca não nos caracteriza e muito menos nos identifica. Jorge Medauar, (grande escritor brasileiro, baiano, uruçuquense, aliás água-pretense) outro conterrâneo ilustre é da mesma teoria. Ele era avesso a essa mistureba de urubu com açúcar porque sempre enalteceu as peripécias do cotidiano da outrora Água Preta.
O nome Uruçuca advém de urucu (grosso, gordo, abelha grande) e côa ( mato, erva, Mato da Abelha Grande) uma espécie de abelha nativa da região que compõe uma das maiores biodiversidade do mundo.
Voltemos. Como um assunto puxa outro hein? Se não volto agora ía me parar na Amazônia e olhe que condiz. É Uruçuca e acabou, fato! Doze de dezembro de 1952 emancipou-se tendo Fernando Zaidam como o primeiro gestor. E desde Zaidan Uruçuca sustenta vários apelidos: Cuçuca, Curuçuca, Urucuca, Uçuca, Muçuca e afins. Meus professores e amigos de faculdade sempre zoaram, no bom sentido claro, com minha naturalidade (apesar de ter nascido em Ilhéus). São sergipanos, eu os perdou. Quando zoado sempre respondia: Uruçuca está para Bahia assim como o Sergipe está para o Brasil. Era uma boa resposta, não era? Contudo, como diria meu pai, Uruçuca caminha mesmo com tantas adversidades.
Meu avô paterno Augusto dizia que Uruçuca era bom no tempo dele, já meu pai Toninho junto com meu tio Marquinhos dizem que o bom mesmo era no tempo deles. Tenho outro tio chamado Menandro que diz: “O bom é agora, o presente”. De Zaidan a Moacyr Júnior cada um mencionará elogios e críticas de seu tempo.
Uruçuca tem um nome engraçado assim como seus habitantes. Vou citar alguns da atualidade e deixo os Memecas e Nenéns Queridas para o Dr. Ronaldo. De cima como nessa foto acima, ou mesmo pelo Google Earth observamos Uruçuca efêmera, singela, toda cortadinha similar a um tabuleiro. Em suas ruas e avenidas, praças e parques nota-se figuras folcloricas, pessoas imponentes e sujeitos hilários. Em qualquer lugar que se vá, seja de pé, carro, bicicleta, enfim, avista-se um guapo moreno vaidoso que se veste de mulher e insiste em dizer ter 18 anos sendo que 50 é sua primavera. Um misto de Vera Verão com uma carranca nordestina Cecílio chama a todos de Márcia e dança rumba como ninguém.
A segunda grande figura folclórica era o ex-vereador e famoso caçador de corruptos, o bem informado Zé Corujão (in memorian). Ele tinha uma voz grossa e pausada para soltar seus palpites certo nas horas certas. Impagável.
Nesse hall há uma escalação etílica de primeira. No gol está posicionada a ousada e astuta dona de bar que se defende de tudo e de todos com um instrumento que leva em seu segundo nome, Maria Peixeira (in memorian). Na zaga o repórter da difusora da região, Bolinha, que fala como se fosse um comediante e sempre põe a tampilha a testa quando abre uma cerveja. Nas laterais temos Demorinha e suas fotos na esquerda e Zefinha com sua diplomacia desconcertante, para não dizer o contrário, a direita. O meio de campo fica com Cubano e seu casteliano fajuto, e no ataque Regininha com sua maozinha marcante divide com Bugé junto a sua dicção fabulosa. Esse sim é um time de bebemorar.
Saindo do vapor etílico ingressamos em sujeitos soltos que enriquecem Uruçuca com suas personalidades. Davaca, Zé de Piu, Bichão, Dona Croiusa, Louco e tantos outros. Esses estão para Uruçuca assim como Zé Café está para Alagoinhas, Iratê para Ilhéus e Zé Américo do Campo do Brito está para Aracaju. Em minha opinião é bom para a cultura local existir figuras folclóricas que constitui a identidade da cidade.
Qualquer cidade que se preze tem seus costumes, hábitos, leis domésticas evidenciados. Os costumes de cidades pequenas e pacatas é tão cultural como uma roda de capoeira ou um grupo de dança. Eis que Urú não foge a regra graças a seres como esses: Hoje em dia a porta da Igreja Nossa Senhora da Conceição (nossa padroeira) sem D. Nivoleta e seus convidados soa desfalque. Ela senta com toda pompa da Oprah Winfrey e recebe várias pessoas para papos regados a risadas desfrutando a bucolia que nossa cidade lhes é peculiar. Verônica, Gaguinha, João Maurício, Zazai são alguns dos vips que já sentaram em seu divã.
Se em umas das cadeiras do bar de Zefinha não estiver Cecílio Argolo à tarde abancado estilo Drumond com suas pernas cruzadas, sério e compenetrado, o lugar não está completo. Ao subir a ladeira do Bêco de Evandro nos deparamos com a Etc e tal aberta e uma mulata cheio dos brios de nome Bernadina em pé chamando clientes e amigos a comprarem em seu estabelecimento. Descendo a Praça Miguel Baracho, passamos pela Praça Xv de Novembro, Travessa Wanderley Fraga e caímos na Praça Régis Pacheco onde possui um busto do mesmo e é palco da irmandade de Sydea por todas as noites. Antes de pegarmos a Rua do Cacau salientamos o Mercado Municipal e sua turma: Alcides Ramos, Barbudo, Ginio da Jabá, Bogoió...
Pegando a Rua do Cacau pela contra-mão se chega num largo meio encrusilhada que é a união da Av. Ruy Barbosa com a Jorge Zaidan. É nessa coesão de endereços que se avista a locadora de Samuel, assim como, sua resenha cabulosa que até Roberto Paraguay participa. Do outro lado está instalado o point de Monicão. A cada salgado que o cliente adquire recebe um carinhoso sorriso rouco da atendente e, também fica a par dos burburinhos da city através das thuc thuc da Helen, Lorena e Taliane. Unido a essa mulherada sempre dar o ar da graça, muito frequentemente, um pinto loroteiro que tira onda de gatinho.
Outro lugar emblemático é a Avenida José Serafim de Farias. Montamos num moto táxi do coroa falador mais conhecido como Fí de Carlos Magno, seguimos a Ruy Barbosa e espirramos na Reversa. Para não alongarmos em detalhes a conceituo um congresso de mexericos. Tudo ali é registrado. Singelas senhorinhas disfarçam suas línguas em diplomáticos boas tardes e acenos ard...
Uruçuca tem história que até JC duvida. Tem situações frequentes que delineia a rotina da cidade, por exemplo as cafuas? Não diria ser uma tertúlia porque nem sempre são amigos que se confraternizam por meio de cartas, diria...deixa pra lá. A mais tradicional é na Banca de Advogacia do Dr. Natanael Pereira. Religiosamente dão o ar da graça indivíduos de nossa society. Dr. Dílson Neves, o troca letras Eraldo Santana, Neto Cabeleireiro, o quase vereador Nau, Zé Dedinho, o turco Tony Kortbany e outros que se abancam na Banca. Outra muito disputada e a do Dica Barril: ex-prefeito e personalidade gozadora a cafua do baixinho é itinerante. Todo dia tem um endereço. Mas a cafua de número residencial certo tem a de Dr. Antônio Manoel, médico, ex-prefeito, (peraí! Mas ex-prefeito já gosta de cafua hein? Já já vem a de Moacyr) e que reúne anônimos que de certa forma edificam cenários pomposos.
Na casa de Luisão têm outra, no bairro Anfrísio Goes tem mais três e outras que me fogem a memória. Isso é cotidiano, rotina. Como bem compôs Chico Buarque em sua canção “Cotidiano”. “Todo dia ela faz tudo sempre igual me sacode às seis horas da manhã...” (escutem, fica a dica). Isso faz com que Uruçuca configure-se singular. Os casos e acasos que Uruçuca nos proporciona são ímpares e, que regam invejavelmente os papos desse cotidiano gostoso. Não é critica e sim exaltação do que considero o cérebro de uma cidade, os habitantes. O livre arbítrio taí pra que esse cotidiano seja validado e exercido. Tem coisa mais dia-a-dia que o ato de comprar pão? Resume-se em claro e bom som e tom o cotidiano. Segue, “... seis da tarde como era de se esperar ela pega e me espera no portão...”.
Foto 1 - Rua Vital Soares na década de 1960
Foto 2 - Vista panorâmica de Uruçuca na década de 1980
Foto 3 Uruçuca fotografada por Fernandes num bimotor em 2002
Texto: Alano Sena Gomes