Babem

terça-feira, 19 de março de 2013

Pão Francês: Nova receita da Bahia

Laís Marques no pandeiro e Brena Gonçalves no baixo

A Bahia é linda! Rapaz... Como a nossa Bahia é babilônica. Cantada em verso e prosa, magna, mágica, enigmática, mística, pioneira. O quê que a baiana tem? Tristeza é senhora... Ai Moreno, atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu e, se Anália não quiser ir eu vou só, vamos! Somos coletivistas, amplos, sagazes como uma baía.

Reconvexo é o timbre da sua voz que diz coisas malucas do maluco beleza. Toca Raul, Ivete. O Cheiro de Tomate faz a gente mercantilizar, trocar, permutar, enfim, um Scambo. Babado Novo: os Novos Baianos, curtindo numa boa, saíram mascando Chiclete junto com Eva e Adão Negro numa Harmonia d’oxum. Eles são Doces Bárbaros. Num é massa meu rei?

É tão massa que nos remete abrir uma partitura e entoar um por um, como se cada um fosse uma nota musical. Dorival, João Gilberto, Simone, Margareth, Daniela, Marcionilo, Tom Zé. Estranho! Não, não é. É Bahia. Mas há quem discorde e caracterize como o lado bom e lado ruim, o que presta e o que não presta, e que o popular esmaga o alternativo.

Falando nisso, tenho certeza, pelo menos um, que nesse momento esteja lendo esse texto se perguntando: e o arrocha?  Sem sombra de dúvidas tem o seu lugar. Falem o que quiserem... Música de gueto, de animação, sem conteúdo, brega, o que seja, mas é genuinamente baiano de Candeias lá de Carola. Esse passeio faz parte do Reino do Dendê como tão bem apelidou Prefeito Netinho, o “estado pai-mãe do Brasil”.

As asas são livres para todos e as partituras também dão lugar ao ritmo, o gingado e os remelexos do arrocha. Nara, Silvano, Trio da Huanna, Pablo. Essa mistura, esse balaio é nosso, nosso cancioneiro que chega por meio da convergência de mídias que objetiva o mercado tornando-o acessível.

Em meio a essa atmosfera exageradamente eclética, muitas das vezes copiadora e, distante da originalidade, surge em terras do cacau do Reino do Dendê, o Pão Francês. Esse projeto faz você sentir aromas dessa baianidade e paladares do nosso cotidiano de maneira singular como o deleite do azeite.

Esse projeto nascido na região sul baiana nos faz incluir no elenco das partituras, acima citado, Brena Gonçalves e Laís Marques. Assistindo ao show dessa dupla, de supetão, surgiram balões como numa revista em quadrinhos pensamentos como: ‘Se a Vanessa da Mata comer esse pão... ’. Show de Bola, os cabelos de ambas já estão na pegada.

Intimista, peculiar, inovador onde se percebe conjunção de influências, encontro de ideias felizes, que ritmadas e “melodiasadas”, completa o sabor fenomenal dessa receita. O foco é o autoral e as meninas estouraram tanto, que desfocaram da mesmice. Em pouco tempo o pão se espalhou como rastilho de pólvora pelas redondezas do Baixo e Extremo Sul. “Delícia”, “gostoso”, “saboroso”, estão sendo palavras do feedback e, o ápice já é. Laís premiada no Festival Internacional de Música do Descobrimento como melhor intérprete.

O arrocha, o axé e o pagode não impediram o sucesso do Pão Francês, muito pelo contrário, disponibilizou aos consumidores opção, emoção e novas canções como “Seu par” que emana o bem querer entre duas pessoas e “Nosso Som de cada dia” que retrata de forma charmosa a vida de cantores de barzinhos. Se joguem. Vamos derrubar as barreiras da resistência. Vamos incentivar esse mosaico musical que é a Bahia. Vamos devorar o Pão Francês. Conheçam e experimentem. https://soundcloud.com/projeto-p-o-franc-s

Alano Sena Gomes

quinta-feira, 7 de março de 2013

Antes Tarde do que Nunca


Crescimento é uma palavra que se encaixa em variados contextos. O Brasil é um país que se encaixa em diversos crescimentos. Mas, crescimento e Brasil não tiveram lá uma boa relação durante o século passado. E nem é preciso recorrer a Freud, os próprios períodos históricos explicam.

Proclamou-se a República, Era Vargas, República Nova, Regime Militar, Nova República. Quando se crescia, algo lhe era furtado. O deleite dos anos dourados ceifou-se com os anos de chumbo. Geladeiras e fogões foram para o beléléu.

Indústria automobilística foi um boom, mas serviu para transportar milicos déspotas, logo em seguida. Sinônimo de pura ironia de avanço. Um milagre Brasileiro surgiu e o Oriente Médio dirimiu. Não havia crescimento crescente (que a redundância nos abençoe) e sim, um semáforo por vida no vermelho, com tempo mínimo de décadas, no país verde e amarelo.

O crescimento retardatário é uma prática corriqueira no país de Gilberto Freire e Sérgio Buarque de Holanda. Em seus periódicos percebe-se isso. Todavia, a busca incessante por uma nação verdadeiramente igual e justa é como ler Harry Poter e não mais sair de Godric's Hollows.

De leitura somos péssimos e ainda temos o desprazer de se posicionar bem atrás da nossa grande rival Argentina. Los hermanos dão olé em quantidade de livros anuais: 20 a 4. Placar que representa nossa lentidão. Absurdo! A própria Imprensa aterrissou em terras tupiniquins de forma tardia nos idos de 1808, junto com a família fugida real. O Brasil é baiano, mas a naturalidade não foi suficiente para que o desenvolvimento chegasse por aqui primeiro. 


A região sul baiana vive um exemplo. A Terra do Cacau anseia momentos para receber a implantação da UFESBA – Universidade Federal do Sul da Bahia, mesmo que tardiamente. Como o Estado que tem em sua história o título de primeira capital brasileira, pensadores como Castro Alves e Ruy Barbosa e uma região que muito sustentou boa parte da Bahia e incrementou o PIB brasileiro, recebe só agora uma universidade federal?

Bom para profissionalização, acessibilidade, alcance de um ensino gratuito, mas somos sabedores que para colher esses frutos demandará tempo. Podíamos estar muito à frente. Podíamos já estar na colheita por meio do tripé: Ensino, Pesquisa e Extensão além da UESC. Salve UESC! Há 15 anos tínhamos apenas a UFBA e sem distribuições de pólos. Existe estado que em cada cidade de 150 mil habitantes tem uma universidade como tem um Hiper Bom Preço. Devemos o quê a quem?

O Território Litoral Sul aceita com carinho e satisfação e, principalmente, comemora esse momento tão esperado. Uma universidade é crescimento e a UFESBA não foge à regra. A UFESBA chega à região do cacau nos 45 minutos do segundo tempo como tudo no Brasil.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Mudei a cara

Tenho que exercitar, tenho que tomar vergonha na cara. Um professor dos tempos de faculdade disse certa vez, que nós jornalistas temos a obrigação profissional de sermos intelectuais, mesmo que não seja ou pareça. O blog é uma ferramenta gratuita para externar o ato de escrever e escrever bem, saca?! Por isso mudei a cara para que me desse um gás novo, uma sinergia bacana e me direcionasse ao maravilhoso mundo da conjunção de verbetes. Então vamos lá!

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

"Prefiro toddy ao tédio"

"Prefiro o toddy ao tédio", já escutaram? Escutei a primeira vez numa conversa no msn. O entendimento dessa expressão é rigorosamente perigosa e corrosiva. Famílias já foram e neste momento estão sendo dilaceradas pelo que alude essa frase. Preferências e afinidades são indiscustíveis e individuais, mas daí o toddy se tonar mania social nacional é demais. Sou careta sim. Drogas tô fora. Minha saudosa vó Eliza chamava de tóxico, hilário. A droga parece tendências de moda, tipo uma saia balonê, uma calça saruel, que já foi a queridinha dos anos 80 e hoje é peça carimbada em todos os guarda-roupas do mulherio antenado. Uma espécie de remake. A droga tem química similar desde seu surgimento, mas com terminologias e épocas diferentes. A cada tempo somos apresentados a uma distinta, assim como, as distintas situações de envolvimento. Há usuários de todas as classes e para todas as "marcas". Abastados e excluídos, ricos e marginais. O LCD está para os playboys como o crack está para aqueles que nunca foram oportunizados. As situações desse paradoxo levaria a uma bela e contudente tese de doutorado em sociologia. Aí pergunto: será que a pessoa que tem tudo sente tédio, ou prefere toddy? É cabuloso...mas depois termino.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Fel para Ilhéus, Mel para Uruçuca

          Apesar de muita gente acreditar que Serra Grande é um distrito de Uruçuca ele é absolutamente um povoado. A Geografia explica. Em meados do século XX Ilhéus e Uruçuca tiveram um embate, uma disputa. Banco Central ou Serra Grande? Houve então um escambo ofertado pela Terra de Jorge Amado a Terra do Jorge Medaur. Nos tempos áureos do cacau, Banco Central era a menina dos olhos por causa da abundante produção do fruto. Geograficamente, Banco Central estava para Uruçuca como Serra Grande para Ilhéus. Mas de fato era assim. O olho grande da antiga Capitania Hereditária fez com que essa situação fosse invertida: e foi.
          O próprio local diz por que a serra é grande. Quem já foi saca na hora. Pegando a rodovia BA 001 trecho de Ilhéus – Itacaré até o pé da Serra percebe o relevo plano. Daí Deus esculturou visús belíssimos com toda sua magnitude. Prainha, Cachoeira do Carioca, Cachoeira do Tijuípe, Praia do Vevé, o Mirante Serra Grande I, a Represa, Praia do Sargi são exemplos do Genesis.
Praia do Sargi
          O povoado atraiu e ainda atraem turistas e nativos pela sua pacacidade. O asfalto a pedido dos moradores passou por fora da vila e, fez com que o progresso in loco fosse retardado. Mas, de outra forma cresceu. Não sei como, mas há 10 anos nosso paraíso foi tomado por uma onda de bichos grilos intelectualizados que trouxeram em suas mochilas a extrema vontade de amenizar problemas esquecidos pelo Estado e Município. Outra vibe  que ocorreu foi o ingresso dos grandes empresários. Cercearam a Serra e a transformaram num curral de nativos. Mão de obra barata da prata da casa para pomposos magnatas sulistas e estrangeiros. Além da Liga da Justiça só o poder público poderia ter ajudado a epidemia dos sotaques além fronteiras. Infelizmente tivemos de encarar uma ditadura. Por oito anos os Três Poderes uruçuquenses mantiveram inimizade com as leis ambientais, de território e uso devido do solo e do Plano Diretor Urbano. Obrigado senhores e senhora.
          A tropa dos sotaques trouxe contribuição? Sim. Avanço? Sim. Politização? Sim. Mas junto a esse balaio hiponga, a tiracolo, veio à droga, violência, prostituição. Já dizia os futuristas, “todo progresso tem más conseqüências”. E seguindo essa premissa, assim ocorreu e ainda ocorre. Hoje a Serra Grande respira um ar de organização bem mais a frente do que o de sua sede e credita-se muito nesses forasteiros, que por sua vez, almejam a emancipação da grande Serra e dizem por aí que é questão de tempo, e pouco. Esse assunto é outro texto.
          Venhamos e convenhamos, o centro está lindo, mas os bairros não. Os bam-bam-bans dos sotaques querem é isso. Lembra o que ACM fez no Pelourinho... Olhemos mais pela Serra, alô Moacyr, alô Teresinha...
           É intenso o movimento de gente na Serra durante o verão. Com isso, requer mais preocupação dos governantes e porque não dos grandes empresários, esses dos sotaques. Salva-vidas, estrutura de informação, folders de turismo e atendimento médico no Posto de Saúde. É dever do município se preparar para seguridade dos serviços essenciais e, da iniciativa privada de propagar as qualidades naturais de nosso paraíso. Avante...Serra Grande o futuro point da Bahia...aguardem.
          Hoje em dia não sei lhe precisar o tamanho do gosto de fel que Ilhéus sente a boca quando para no Mirante II da Serra e vislumbra um dos mais bonitos cartões postais da Bahia. Uruçuca sei que saboreia o mel por orgulhosamente oferecer um pedacinho do céu a seus visitantes.
Vista do Mirante II de Serra Grande - Uruçuca








Fotos: Google Imagens
Texto: Alano Sena Gomes

sábado, 22 de maio de 2010

Uruçuca: história e cotidiano

           Engraçado o nome da nossa cidade. Uruçuca! Antes Água Preta devido a água escura que a colore. No tempo dos coronéis a vida foi delineada pelo fruto de ouro que tanto nos deram riquezas: o Theobroma
Cacao. Esse nome cientifico vulgarmente é conhecido como Cacau.  Ele é meio oval de relevo acidentado e de nuances diversas: verde, amarelo, roxo. Ao partir a casca surge gomos de cacau encapusados por um veludo doce coesos a uma raiz saborosamente comível. Impressionante.       
          Essa descrição é para atenuar o quanto foi e ainda é importante pra nós, esse que é uma espécie de identidade pra nosso povo. Infelizmente hoje nos resta só o couro e, por isso a região então ficou conhecida como cacaueira carregando assim adjetivos que aludem a riqueza. Mas, a riqueza e glamuor que Deus queria era a riqueza de espírito e bondade que poucos obtinham. Coronéis esbanjavam seu poder aquisitivo em móveis, terras e imóveis enquanto suas esposas e filhas direcionavam a vestidos, jóias e viagens. Reza a lenda que havia tanto dinheiro que cavalos tomavam duchas de cervejas.
          Nossa cidade de nome engraçado, pertencente a esse território, resolveu mudar do nome genuíno para o jocoso devido a já uma existente homônima no Estado de Pernambuco. Putz perdemos a “parada”  feio e desembocamos em Uruçuca por termos menos tempo de Água Preta. Hoje o que nos remete ao antigo nome é o rio que corta nosso município, o Centro Cultural, as lembranças dos antigos e um time. Meu amigo e primo Dr. Ronaldo Vasconcelos discorda totalmente. Para ele, onde moramos, até hoje, deveria se chamar Água Preta. Ele ainda evidencia uma espécie de perda de identidade, uma vez que a junção da nomeclatura Uruçuca não nos caracteriza e muito menos nos identifica. Jorge Medauar, (grande escritor brasileiro, baiano, uruçuquense, aliás água-pretense) outro conterrâneo ilustre é da mesma teoria. Ele era avesso a essa mistureba de urubu com açúcar porque sempre enalteceu as peripécias do cotidiano da outrora Água Preta.
          O nome Uruçuca advém de urucu (grosso, gordo, abelha grande) e côa ( mato, erva, Mato da Abelha Grande) uma espécie de abelha nativa da região que compõe uma das maiores biodiversidade do mundo.


          Voltemos. Como um assunto puxa outro hein? Se não volto agora ía me parar na Amazônia e olhe que condiz. É Uruçuca e acabou, fato! Doze de dezembro de 1952 emancipou-se tendo Fernando Zaidam como o primeiro gestor. E desde Zaidan Uruçuca sustenta vários apelidos: Cuçuca, Curuçuca, Urucuca, Uçuca, Muçuca e afins. Meus professores e amigos de faculdade sempre zoaram, no bom sentido claro, com minha naturalidade (apesar de ter nascido em Ilhéus). São sergipanos, eu os perdou. Quando zoado sempre respondia: Uruçuca está para Bahia assim como o Sergipe está para o Brasil. Era uma boa resposta, não era? Contudo, como diria meu pai, Uruçuca caminha mesmo com tantas adversidades.
           Meu avô paterno Augusto dizia que Uruçuca era bom no tempo dele, já  meu pai Toninho junto com meu tio Marquinhos dizem que o bom mesmo era no tempo deles. Tenho outro tio chamado Menandro que diz: “O bom é agora, o presente”. De Zaidan a Moacyr Júnior cada um mencionará elogios e críticas de seu tempo.


          Uruçuca tem um nome engraçado assim como seus habitantes. Vou citar alguns da atualidade e deixo os Memecas e Nenéns Queridas para o Dr. Ronaldo. De cima como nessa foto acima, ou mesmo pelo Google Earth observamos Uruçuca efêmera, singela, toda cortadinha similar a um tabuleiro. Em suas ruas e avenidas, praças e parques nota-se figuras folcloricas, pessoas imponentes e sujeitos hilários. Em qualquer lugar que se vá, seja de pé, carro, bicicleta, enfim, avista-se um guapo moreno vaidoso que se veste de mulher e insiste em dizer ter 18 anos sendo que 50 é sua primavera. Um misto de Vera Verão com uma carranca nordestina Cecílio chama a todos de Márcia e dança rumba como ninguém.
          A segunda grande figura folclórica era o  ex-vereador e famoso caçador de corruptos, o bem informado Zé Corujão (in memorian). Ele tinha uma voz grossa e pausada para soltar seus palpites certo nas horas certas. Impagável.
           Nesse hall há uma escalação etílica de primeira. No gol está posicionada a ousada e astuta dona de bar que se defende de tudo e de todos com um instrumento que leva em seu segundo nome, Maria Peixeira (in memorian). Na zaga o repórter da difusora da região, Bolinha, que fala como se fosse um comediante e sempre põe a tampilha a testa quando abre uma cerveja. Nas laterais temos Demorinha e suas fotos na esquerda e Zefinha com sua diplomacia desconcertante, para não dizer o contrário, a direita. O meio de campo fica com Cubano e seu casteliano fajuto, e no ataque Regininha com sua maozinha marcante divide com Bugé junto a sua dicção fabulosa. Esse sim é um time de bebemorar.
          Saindo do vapor etílico ingressamos em sujeitos soltos que enriquecem Uruçuca com suas personalidades. Davaca, Zé de Piu, Bichão, Dona Croiusa, Louco e tantos outros. Esses estão para Uruçuca assim como Zé Café está para Alagoinhas, Iratê para Ilhéus e Zé Américo do Campo do Brito está para Aracaju. Em minha opinião é bom para a cultura local existir figuras folclóricas que constitui a identidade da cidade.
          Qualquer cidade que se preze tem seus costumes, hábitos, leis domésticas evidenciados. Os costumes de cidades pequenas e pacatas é tão cultural como uma roda de capoeira ou um grupo de dança. Eis que Urú não foge a regra graças a seres como esses: Hoje em dia a porta da Igreja Nossa Senhora da Conceição (nossa padroeira) sem D. Nivoleta e  seus convidados soa desfalque. Ela senta com toda pompa da Oprah Winfrey e recebe várias pessoas para papos regados a risadas desfrutando a bucolia que nossa cidade lhes é peculiar. Verônica, Gaguinha, João Maurício, Zazai são alguns dos vips que já sentaram em seu divã.
          Se em umas das cadeiras do bar de Zefinha não estiver Cecílio Argolo à tarde abancado estilo Drumond com suas pernas cruzadas, sério e compenetrado, o lugar não está completo. Ao subir a ladeira do Bêco de Evandro nos deparamos com a Etc e tal aberta e uma mulata cheio dos brios de nome Bernadina em pé chamando clientes e amigos a comprarem em seu estabelecimento. Descendo a Praça Miguel Baracho, passamos pela Praça Xv de Novembro, Travessa Wanderley Fraga e caímos na Praça Régis Pacheco onde possui um busto do mesmo e é palco da irmandade de Sydea por todas as noites. Antes de pegarmos a Rua do Cacau salientamos o Mercado Municipal e sua turma: Alcides Ramos, Barbudo, Ginio da Jabá, Bogoió...
          Pegando a Rua do Cacau pela contra-mão se chega num largo meio encrusilhada que é a união da Av. Ruy Barbosa com a Jorge Zaidan. É nessa coesão de endereços que se avista a locadora de Samuel, assim como, sua resenha cabulosa que até Roberto Paraguay participa. Do outro lado está instalado o point de Monicão. A cada salgado que o cliente adquire recebe um carinhoso sorriso rouco da atendente e, também fica a par dos burburinhos da city através das thuc thuc da Helen, Lorena e Taliane. Unido a essa mulherada sempre dar o ar da graça, muito frequentemente, um pinto loroteiro que tira onda de gatinho.
          Outro lugar emblemático é a Avenida José Serafim de Farias. Montamos num moto táxi do coroa falador mais conhecido como Fí de Carlos Magno, seguimos a Ruy Barbosa e espirramos na Reversa. Para não alongarmos em detalhes a conceituo um congresso de mexericos. Tudo ali é registrado. Singelas senhorinhas disfarçam suas línguas em diplomáticos boas tardes e acenos ard...  
          Uruçuca tem história que até JC duvida. Tem situações frequentes que delineia a rotina da cidade, por exemplo  as cafuas? Não diria ser uma tertúlia porque nem sempre são amigos que se confraternizam por meio de cartas, diria...deixa pra lá.  A mais tradicional é na Banca de Advogacia do Dr. Natanael Pereira. Religiosamente dão o ar da graça indivíduos de nossa society. Dr. Dílson Neves, o troca letras Eraldo Santana, Neto Cabeleireiro, o quase vereador Nau, Zé Dedinho, o turco Tony Kortbany e outros que se abancam na Banca. Outra muito disputada e a do Dica Barril: ex-prefeito e personalidade gozadora a cafua do baixinho é itinerante. Todo dia tem um endereço. Mas a cafua de número residencial certo tem a de Dr. Antônio Manoel, médico, ex-prefeito, (peraí! Mas ex-prefeito já gosta de cafua hein?  Já já vem a de Moacyr) e que reúne anônimos que de certa forma edificam cenários pomposos.
           Na casa de Luisão têm outra, no bairro Anfrísio Goes tem mais três e outras que me fogem a memória. Isso é cotidiano, rotina. Como bem compôs  Chico Buarque em sua canção “Cotidiano”. “Todo dia ela faz tudo sempre igual me sacode às seis horas da manhã...” (escutem, fica a dica). Isso faz com que Uruçuca configure-se singular. Os casos e acasos que Uruçuca nos proporciona são ímpares e, que regam invejavelmente os papos desse cotidiano gostoso. Não é critica e sim exaltação do que considero o cérebro de uma cidade, os habitantes. O livre arbítrio taí pra que esse cotidiano seja validado e exercido. Tem coisa mais dia-a-dia que o ato de comprar pão? Resume-se em claro e bom som e tom o cotidiano. Segue, “... seis da tarde como era de se esperar ela pega e me espera no portão...”.


Foto 1 - Rua Vital Soares na década de 1960
Foto 2 - Vista panorâmica de Uruçuca na década de 1980
Foto 3 Uruçuca fotografada por Fernandes num bimotor em 2002

Texto: Alano Sena Gomes




quinta-feira, 6 de maio de 2010

O caminho que meus pais me ensinaram

Quando moça era conhecida como a filha caçula do delegado. O nome dela foi herdado de sua tia que tinha fibra moral, ética e generosidade abundante. Sua mãe era compenetrada, calada, justa, forte e carinhosamente era atendida por Yá. Era sapeca, quase um menino de rua. Os meninos lhe chamavam de girafa por ter uma altura avantajada quando adolescente. Certa vez, a garota misturou as fábulas da literatura infantil. A Alice no País das Maravilhas viu uma maçã da Branca de Neve pela primeira vez na casa da vizinha que obtinha costumes requintados. A vizinha presenteou-a para sua tamanha felicidade, mas mal sabia ela que tamanha seria a bronca para devolvê-la.

Essa menina era a menina dos olhos de seu pai (todos filhos dizem isso). Com bravura de uma mulher maravilha defendia quem estivesse em perigo. Suas irmãs são Mary e Jussara. A primeira é a mais velha, loira, amiga comadre. A segunda é a do meio entre as mulheres, índia, comadre, cúmplice e parceira dos devaneios juvenis. De gênio forte obedecia a seus dois irmãos, era praticamente um clássico carioca. Flamengo X Vasco. Optou por torcer pelo time da cruz maltina por realizar com capricho serviços domésticos para o mano mais velho. Arrumar guarda-roupa, limpar sapatos e afins. Apesar do suborno velado o trocado no fim do mês era certo como dois mais dois são quatro.

A família de Seu Edísio era grande, de fazendeiros, coronéis, boa parte rica e a outra parte boa, pobre. A fazenda Ribeira, dos Vasconcelos, foi palco de momentos vividos com harmonia e doçura que custarão a se apagar. Tio Maneca, tia Joana, tio Carrinho, tio Dioclides, tia Fileta, tia Marieta, tia Ziza, tia Nazinha, primo Samuel. Pelo lado de sua “mamãe” (Maria José), como a chamava respeitosamente a prole, era pequena . Os espetáculos familiares eram apresentados em Ilhéus e no distrito próximo, o de Banco Central. Mãe Nega, Mãe Nenen, os primos Djalma, Edelson, Zé Mildo e as primas Deija, Edinha, Isabel e as do “Inha”: Bezinha, Zelinha, Sinhazinha, Lelinha, Nicinha ufa! Essa patota formava o elenco dos Amorim.

Pelo fim do parágrafo “dois” nem precisa dizer qual parte (financeira) da família a “minina” pertencia. Houve dia que à mesa era servido couro de porco. Mas, as dificuldades se transformaram em coragem e foi nos tempos de escola que ela conheceu sua profissão. Foi observando o ensino que aprendeu a ensinar. A Professora Marleine Estrela destaca-se por se torna uma amiga além da educadora. No primário conhecera amigas como Kita (que viera ser sua cunhada) e Maria Leopoldina. No ginásio veio à turma da pesada e demasiados passeios: Tereza Cristina, Manoel do Carmo, Verinha, Antônio Celito, Luciene, Ronaldo Melo, Adeildes, Iracema. Ao terminar o ginásio mudou-se de cidade e de endereço: São Jorge dos Ilhéus na Avenida 2 de julho sob olhares severos de Dona Honorina. Mas havia baile, o termo de outrora do que hoje conhecemos por balada. Zaíra, Crezilda, Sumaia, Noquinha agitaram sua temporada na cidade da “Gabriela Cravo e Canela”.

Formada em magistério reencontrou Kita que seguiu sua sequência acadêmica. Por questões financeiras ela parou por ali e nunca se queixou por isso. Dessa amizade, confidências e companheirismo nasceu a Escolinha Pingo de Gente que hoje se chama Nossa Senhora da Conceição. Esse colégio tem mais de trinta anos de serviços educacionais prestados. Deixou a escolinha e ingressou no Estado onde edificou amizades rochosas. Darcy Melo, Kátia Virgínia, Regina, Vera Barbosa e Maynard, Sidalva. Entranhado a isso se enlaçou com um jovem “guapo” da sociedade de apelido Toninho onde se tornou uma Sena Gomes creditando vida a três fofas figuras. Martha, Carlos e seu caçula que vos escreve. Esse matrimônio também lhe rendeu uma vasta herança – uma novena de Santo Antônio a cada ano, oferta de caruru no dia 13 de junho, Loura, Leno, Jal, Menandro, Ângela, Dé, Roberto, Judy, Bolinha um sogro e uma sogra feitos pais, diversos sobrinhos, sobrinhos netos e um parentesco um tanto quanto remoto com a estrela baiana Ivete Sangalo. Ah e momentos felizes. Os tristes? Jogastes fora.

A política sempre lhe atraiu desde os causos de “papai”. Assassinato de Vítor, a fuga de Osmário, a vitória de Dr. Moacyr, a cassação de Evandro. Por isso, em 21 de junho de 1955, em ritmo de forró, fogueira, bombas e foguetes ecoou um grito de choro na Rua das Flores, Centro, s/n na cidade de nome estranho. Nas mãos da parteira ela foi erguida enlambuzada de sangue, muita melanina e humildade. Nascia a hoje secretária de assistência social do município de Uruçuca, Alice Ângela Vasconcelos Sena Gomes. Apesar de ESTAR secretária, jamais se furtará de desempenhar seu papel e colaborar com quem precisa fazendo jus a Constituição, prevalecendo o direito de todos e auxiliando a comunidade a entender o que é Ação Social. Sabe por quê? Porque ela sabe da onde veio, que caminho trilhou e nunca se esquecerá, nem sob tortura do All Zaimer, o caminho que seus pais o ensinou.



OBS: Perfil jornalistico de minha mãe Alice Angela Vasconcelos Sena Gomes

Foto: Martha Vasconcelos